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Beyond the Transaction: Every Transaction Has a Story
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O celular, o futuro do dinheiro e a inclusão social

Artigo originalmente publicado no jornal Brasil Econômico na segunda-feira, 15 de junho de 2015

João Pedro Paro Neto/

Quase metade da população brasileira ainda recebe e faz pagamentos em dinheiro. Os dados mais recentes do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) indicam que 40% dos brasileiros não têm conta em banco nem acesso a seus serviços. O mesmo levantamento revelou também que grande parte desse grupo deseja ter uma conta corrente, mas não se considera em condições de tornar-se correntista.

A exclusão financeira, portanto, ainda é uma realidade no Brasil. Apesar de ser tema de debates no país desde os anos 90, ela pouco recuou nos últimos 20 anos. Mesmo com maior distribuição de renda e programas que tiraram milhões de brasileiros da extrema pobreza, o Brasil está longe de incluir seus cidadãos no sistema financeiro e de ampliar seu protagonismo também nessa esfera da vida social.

Para essas pessoas, continua impossível realizar operações hoje corriqueiras como pagar as contas do mês, poupar para um projeto futuro, transferir dinheiro para familiares ou fazer empréstimos. Neste último caso, aqueles que não têm acesso aos bancos muitas vezes tomam dinheiro emprestado por meios não regulamentados e são obrigados a arcar com juros acima dos praticados pelo mercado, além de enfrentar condições abusivas para a quitação da dívida. Comodidade não só para contabilizar o dinheiro que entra e sai, mas também para dispor dos recursos de forma segura é outro benefício ao alcance dos bancarizados, mas ainda distante de quem está excluído do sistema.

Por outro lado, enquanto quase metade da população não tem acesso ao sistema financeiro, a mais recente edição da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) mostra que, em 2013, 90% dos brasileiros tinham uma linha de telefone celular. Já a Anatel divulgou que encerramos 2014 como nada menos do que 280 milhões de celulares ativos no país, ou 138 aparelhos por 100 habitantes. Nessa esfera, o processo de inclusão é vigoroso e revela-se indutor de outros avanços.

Os “com-celular” estão usando cada vez mais o aparelho para realizar transações bancárias. Empresas de telefonia e de meios de pagamento se unem para permitir que, nos mais distantes pontos do país, os aparelhinhos possam realizar operações até há pouco restritas aos correntistas de bancos. Essas pessoas fazem ou recebem um “depósito” na linha, mediante a compra de créditos, e, com o celular, pagam contas e transferem valores. As transações são seguras, dispensam papel moeda e ficam registradas. Apenas entre 2007 e 2013, último intervalo em que se podem comparar dados disponíveis no Banco Central, as transações realizadas com celular e dispositivos móveis como palm-tops saltaram 4.176% – de 37 milhões para 1,5 bilhão ao ano –, ultrapassando até a ampliação do atendimento pela internet, que cresceu 167% no mesmo período.

As localidades com menor acesso ao sistema financeiro e mais carentes de oportunidades de ascensão social são as que mais se beneficiam do uso do celular como meio de pagamento. O aumento de operações financeiras – viáveis graças ao uso dos aparelhos móveis – estimula a economia local, gerando negócios e aumentando a arrecadação de impostos, o que também traz benefícios para a população.

Um estudo da consultoria Value Partners para a Mastercard que analisou os custos indiretos do dinheiro, a economia informal e os impactos da migração para meios eletrônicos de pagamento em 35 países já mostrou que, no Brasil, um aumento de 10% no uso dos meios eletrônicos de pagamento já teria potencial de expandir o PIB em 1% – o que em período de baixo crescimento econômico não é pouca coisa. Traria ainda ganhos adicionais para sociedade e governos, porque reduziria a sonegação fiscal e a corrupção.

Os meios eletrônicos de pagamento constituem o futuro do dinheiro e podem melhorar a vida das pessoas hoje ignoradas pelo sistema financeiro. Tudo indica que o celular é a chave que abrirá para um enorme contingente de pessoas no Brasil um mundo de facilidades que ainda lhe são negadas.

Presente até nos mais simples lares do país, o celular se mostra o instrumento capaz de derrubar barreiras da exclusão financeira. Iniciativas para substituir operações baseadas em dinheiro por operações digitais, por sua vez, devem ser acolhidas como formas de promover desenvolvimento mais justo, sustentável e inclusivo.

/João Pedro Paro Neto é presidente da MasterCard Brasil e Cone Sul.